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domingo, 31 de julho de 2011

No espelho






Olhou-se. Encarou-se por longos minutos.

Uma lágrima brotou no canto esquerdo e no direito dos olhos. Uma chorava de raiva. A outra, de arrependimento.

Os estilhaços deram fim às duas.

Na manhã seguinte, uma terceira renascia.

Única!

Emendara-se com os cacos...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Voraz



Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela.
Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta.
Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia.
Eu observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável?
A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos insetos do jardim que pululam à luz da lua. Talvez nem se interesse em saber a nossa opinião. Despudoradamente deseja. Dane-se todo o resto.

De vez em quando me serviria ser uma lagartixa. Completamente focada em meus desejos. Grudada na tua janela despudoradamente.

quinta-feira, 10 de março de 2011

sábado, 5 de março de 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Engodo


Apagou o número do telefone dele. Excluiu-o de todas as formas.
Respirou fundo.
Caminhou sem olhar para trás. A vida estava apenas começando. O passado deixava de existir, o presente era ótimo, o futuro..."Pra que pensar no futuro se ele é uma incógnita?"
Comprou roupas novas, mudou o corte de cabelo...
Respirou fundo.
Havia tanto por fazer, tanto por experimentar.
Viveria agora só no presente! Dádiva absoluta!
Não se lembrava de nada: do telefone... não se lembrava de nada.
Esqueceu-se do amor,da saudade, do desejo, da paixão, do arrepio, do toque...
Presente. Dádiva absoluta! Sinônimo de felicidade! Recomeço!

O cabelo tornou a crescer, as roupas ficaram velhas e todos os dias ela respira fundo e se lembra de esquecer.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Perdida



Acordou. Abriu a janela prestando atenção aos sinais do tempo.Tomou um longo banho bem quente. Colocou uma blusa, calça jeans, um tênis, perfumou-se. Antes de sair, conferiu a bolsa. Trancou a casa.

A chave foi encontrada na lixeira. Os documentos também. Ninguém sabe o que houve.
Não levou nada da confortável vida que tinha. Não disse adeus a ninguém! Desapareceu sob a neblina. Densa, misteriosa....

domingo, 26 de dezembro de 2010

Continho



Ruiva, sardenta, magra.
_ Foguinho!
_ Espiga de milho!
_ Labareda!
Moleque, pés descalços, bermuda, banho de rio.
_ Nem parece uma menina!
_ Olha só que modos!
_  Nunca a vi de vestido!
_ Cruzes!
Briguenta, desaforada, petulante.
_ Não tem educação!
_ Veja bem como fala com os mais velhos!
_ Boca suja!
_ Essa não tem jeito.
_ Não quero você falando com ela!
_ Vai acabar sozinha!
_ Duvido que arranje marido!
Descoberta, desvendada, revelada...
_ Moranguinho...
_ Hum!?
_Você parece um moranguinho com todas essas pintinhas.
_ Pareço?
_ Sim. Seus cabelos...
_ O que tem meus cabelos?
_ Você os roubou do Sol para ofuscar meus olhos?
_ ...
_ Você é linda, sabia?
_  !!!!
_  Hei! Volte aqui!
Menina, moça, feminina, mulher.
_  Não acredito!
_  O filho do Prefeito?
_  Dizem que está completamente apaixonado por ela.
_  Por aquele bichinho chucro!!??
_  Oi.
_  Oi.
_  Você está perfumada.
_  Estou.
_  Está linda de vestido!
_  Obrigada!
_  O que você quer fazer? Vamos ao cinema? Ao parque? À lanchonete?
_  Não sei...
_ Você escolhe.
_ Vamos tomar banho de rio?
_ Vamos, meu moranguinho!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Visagem




Duas luas!
Não se preocupou; devia estar sonhando.
Tornou a olhar, agora desconfiado. As danadas continuavam lá, reluzindo!
Esfregou os olhos, sacudiu a cabeça para ver se acordava, beliscou-se...
Nada! Havia mesmo duas luas no céu.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tule preto



Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta.
Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs.

Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse.

Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros.  Rosas de organza grená passaram a enfeitar o jarro. Cortinas marrons cobriram o que restava de luz nas janelas. Em cada nova peça dedicava-se por completo.

No início, o tempo bateu na porta trazendo os ventos de outono convidando-a a olhar para as belas folhas douradas sobre o chão. Nada! Voltou trazendo delicados raios de sol para aquecer os dias frios. Em vão! Paciente, trouxe-lhe flores, folhas, frutos, exuberância! Não adiantou. Em sua última tentativa, chegou com o calor dos afagos, com temporais de alegria, com trovões e raios anunciando festa. Então ela quis sair. Mas quando tirou dos olhos o tule preto, nada enxergou. Mesmo assim tentou. Seus pés, no entanto, não conheciam o caminho para a porta e esta, tanto tempo fechada, tinha virado parede...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O choro



Ela permitiu pela primeira vez que o vento desalinhasse seus cabelos e gostou!
Animada, deixou a água fria do mar tocar seus pés. Adorou aquela nova e perturbadora sensação. Também não se importou que o sol lhe tocasse a pele bronzeando-a...

Arrumou-se, voltou ao cemitério. Chorou profundamente diante do caixão.
Estava livre, então!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Encanto


O cheiro que vinha da cozinha era especial. Só ela fazia aquele prato cheirar tão bem.

O bate papo na sala de visitas mudava. Girava em torno dela, da sua habilidade em encantar a todos, de receber com carinho e principalmente de cozinhar tão maravilhosamente.

Era possível ouvir os ruídos denunciando a fome de cada um, mas ninguém se atrevia a ir até a cozinha. Era território proibido. 

Secretamente, ela se deliciava: mesmo que não estivesse por perto, era o centro das atenções.

sábado, 27 de novembro de 2010

A decisão



O telefone tocou uma, duas... várias vezes.
Depois foi a vez da campainha, da buzina, do entregador de flores.
A caixa de e-mails superlotou.
Todos sem resposta.
Fechou portas e janelas. Tornou o dia em noite.
Trancada em casa, chora. Relembra e torna a chorar.
Caiu na armadilha: preferiu sofrer a perdoar.