Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de abril de 2011

Pausa


- O gole tá pronto!
Mal tínhamos almoçado e ele gritava avisando que tinha acabado de passar o café. Eu subia as escadas que separavam nossas casas, atrás da minha mãe que geralmente ralhava comigo, porque queria que primeiro eu lavasse a louça do almoço. Mas aquele café era especial. Forte! Fortíssimo! Não havia açúcar que o adoçasse. Era tomado em canecas de esmalte sempre descascadas em algum ponto. Os adultos aproveitavam a desculpa para fazer uma pausa no meio do dia, geralmente cansativo. Conversavam à beira do fogão à lenha, onde ele teimava em fazer o café. A coadeira, o coador, o tanque cheio de roupas, os cachorros deitados no chão, o varal repleto. Todos em pausa pro gole do vô João.

sábado, 26 de março de 2011

Vô João



Lembro-me do meu bisavô. Forte, sacudido, entendedor de ervas, exterminador de formigueiros, cuidador de seus cachorros.

Lembro-me do meu primeiro dia na escola. Na volta ele me perguntou sarcasticamente: “Você aprendeu como e um pé de jiló?” respondi com a soberba de quem achava que a vida se aprendia na escola: “Isso não ensina lá!” E ele com seu jeito desdenhoso e provocante: “Então não serve pra nada! Aprender aritmética e não saber o que é um pé de jiló! Quá!”

Ele adorava implicar comigo ou com todos, mas eram suas receitas de chás e sua disposição de entrar na mata, que ainda havia perto de casa, em busca dos seus matinhos milagrosos, que me tiravam das medonhas crises asmáticas ou curavam as ziquiziras aparecidas na pele, livravam-me dos vermes e das enxaquecas: saião, hortelã, erva-de-são-joão, carobinha, macaé e outras das quais não me lembro.

“Vai chover hoje, vô?” e ele estudava o sentido do vento e respondia certeiramente. A gente saía sem a preocupação de ser surpreendida.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A resposta



- A vida pode ser melhor que o sonho?

A pergunta soou estranha. Estavam na cozinha envolvidas com os preparativos de um almoço em família. Uma picando temperos, a outra no fogão fazendo uma farofa maravilhosa.

Os aromas na cozinha despertavam sensações perdidas na lembrança: festas de aniversário, crianças correndo, festas de natal com todo mundo reunido. Ano novo! Quando ela terminava as rabanadas pouco antes da meia-noite, apavorada com medo de passar o ano na cozinha.

Na panela, tempero verde, cebola, alho, manteiga, cenoura e por fim a farinha. No forno o cheiro do assado. Do espesso molho, que a todo o momento é generosamente espalhado sobre a carne.

As crianças correm pelo quintal. De vez em quando uma entra e rouba alguma coisa na cozinha. Molecagem pura! Na sala, o marido e o genro assistem à tv e conversam animadamente. Serve-lhes uns petiscos para acompanhar a cervejinha.

A ampla sala, sempre bem arrumada, tem um gostoso desalinho do tempo dos filhos pequenos. O barulho do portão anuncia a chegada do filho, dos outros netos e da nora. Família completa! O filho logo se reúne na sala. Mais cerveja! A nora vem trazendo os ingredientes para a sobremesa. A única coisa que faz na cozinha. Estão animadas.

Gemas, açúcar, coco ralado, manteiga. No fogo uma calda fervente em ponto de fio. As forminhas espalhadas sobre a mesa são untadas e polvilhadas com açúcar. Entram no forno em banho-maria.

Olha para a filha arrumando os pratos com esmero. Fazendo uma delicada flor com a beterraba que vai sobre a maionese, enfeitando o assado com farofa e coloridas tiras de pimentão, salpicando cheiro-verde sobre o arroz. Até a nora faz seus quindins com visível prazer.

A campainha toca. Estranhamente, os homens não a atendem. Chamam por ela. No portão um rapaz está escondido atrás de um belíssimo vaso de orquídea. Adora orquídeas! Emociona-se. Presente do marido. Todos a observam da varanda.

Reúnem-se em torno da mesa cuidadosamente arrumada. Falam alto, disputam a comida, riem, deixam cair migalhas sobre a mesa e no chão. Mais uma vez, ela tudo observa.

Depois do almoço, as crianças tiram a mesa e arrumam a sala. Os maridos lavam a louça.

Juntas, na varanda, as mulheres são cúmplices de um mudo acordo. Cada uma, ao seu jeito, mantém unida a família. Entreolham-se ao ouvir o barulho que vem da casa. Sorriem.

-A vida pode sim ser melhor! Cada vez melhor que o sonho!
Esticam-se confortavelmente nas cadeiras de vime, todas com os pés sobre a mesa.
É a hora delas tomarem cervejinhas e fazerem fofoca.