quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Engodo
Apagou o número do telefone dele. Excluiu-o de todas as formas.
Respirou fundo.
Caminhou sem olhar para trás. A vida estava apenas começando. O passado deixava de existir, o presente era ótimo, o futuro..."Pra que pensar no futuro se ele é uma incógnita?"
Comprou roupas novas, mudou o corte de cabelo...
Respirou fundo.
Havia tanto por fazer, tanto por experimentar.
Viveria agora só no presente! Dádiva absoluta!
Não se lembrava de nada: do telefone... não se lembrava de nada.
Esqueceu-se do amor,da saudade, do desejo, da paixão, do arrepio, do toque...
Presente. Dádiva absoluta! Sinônimo de felicidade! Recomeço!
O cabelo tornou a crescer, as roupas ficaram velhas e todos os dias ela respira fundo e se lembra de esquecer.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Perdida
Acordou. Abriu a janela prestando atenção aos sinais do tempo.Tomou um longo banho bem quente. Colocou uma blusa, calça jeans, um tênis, perfumou-se. Antes de sair, conferiu a bolsa. Trancou a casa.
A chave foi encontrada na lixeira. Os documentos também. Ninguém sabe o que houve.
Não levou nada da confortável vida que tinha. Não disse adeus a ninguém! Desapareceu sob a neblina. Densa, misteriosa....
domingo, 26 de dezembro de 2010
Continho
Ruiva, sardenta, magra.
_ Foguinho!
_ Espiga de milho!
_ Labareda!
Moleque, pés descalços, bermuda, banho de rio.
_ Nem parece uma menina!
_ Olha só que modos!
_ Nunca a vi de vestido!
_ Cruzes!
Briguenta, desaforada, petulante.
_ Não tem educação!
_ Veja bem como fala com os mais velhos!
_ Boca suja!
_ Essa não tem jeito.
_ Não quero você falando com ela!
_ Vai acabar sozinha!
_ Duvido que arranje marido!
Descoberta, desvendada, revelada...
_ Moranguinho...
_ Hum!?
_Você parece um moranguinho com todas essas pintinhas.
_ Pareço?
_ Sim. Seus cabelos...
_ O que tem meus cabelos?
_ Você os roubou do Sol para ofuscar meus olhos?
_ ...
_ Você é linda, sabia?
_ !!!!
_ Hei! Volte aqui!
Menina, moça, feminina, mulher.
_ Não acredito!
_ O filho do Prefeito?
_ Dizem que está completamente apaixonado por ela.
_ Por aquele bichinho chucro!!??
_ Oi.
_ Oi.
_ Você está perfumada.
_ Estou.
_ Está linda de vestido!
_ Obrigada!
_ O que você quer fazer? Vamos ao cinema? Ao parque? À lanchonete?
_ Não sei...
_ Você escolhe.
_ Vamos tomar banho de rio?
_ Vamos, meu moranguinho!
sábado, 18 de dezembro de 2010
Sinais
-Assim? De repente?
-Claro que não!Você não percebeu os sinais?
-Que sinais?
- Ora, todos!
- Não, não percebi.
- É eu sei. Devia saber que você não perceberia mesmo. Nunca percebe nada! Vive nesse mundinho, sempre fazendo as mesmas coisas, preocupada em economizar, em manter armários arrumados, em conferir as notas dos meninos, em ver se a minha roupa está bem passada. Em fazer chazinho a cada dor de barriga dentro desta casa, que não notou as mudanças.
- Pensei que estava fazendo o que era certo...
Na varanda, nunca a paixão fora tão clara!
- Pensei que você se sentisse bem... que eu lhe fazia bem...
- Bem demais! Nunca vi tanta paz! Estou cansado.
- Eu posso mudar.
- Não, não pode. Você é assim. Impossível você mudar! É isso! Chegamos ao fim! Nosso casamento é um tédio.
Acordou assustada, suando. Sentiu uma enorme sensação de alívio ao perceber que sonhara. Olhou para o lado, viu o marido dormindo serenamente. O medo se instalou em seu coração. “E se tudo aquilo fosse um aviso? Um sinal?” Estremeceu só de pensar. Levantou-se. Desde quando era mulher de premonições? De crendices? Teve um dia cheio, por isso o pesadelo. Aquele doce que a sogra mandou também deve ter feito mal. “Nem estava bom.”
Tornou a olhar para o marido; desta vez, desconfiada, inquieta.
Tomou um banho, vestiu a lingerie nova, pôs o vestido mais bonito, meias finas, salto alto. Saiu do quarto batendo levemente a porta.
O marido foi encontrá-la sentada na varanda, pernas cruzadas, insinuante... Surpreendeu-se. Não entendeu nada! Fechou a porta com cuidado para não acordar as crianças.
Sobre a pequena mesa, uma garrafa de vinho, duas taças. Achou melhor manter o silêncio. Serviu o vinho e dançaram juntos uma música que só eles ouviam.
A desconfiança agora habitava os pensamentos dele!
Um primeiro beijo e as taças foram esquecidas. Sorriram, cúmplices da mesma aventura, partes do mesmo desejo. Um segundo beijo e as mãos se entrelaçaram ávidas. Um terceiro, e corpo e alma se tornaram um
No céu, as nuvens tornavam a madrugada mais escura.
- Você é muito previsível! Eu chego em casa e sei que você vai estar esperando, de banho tomado, perfumada, com o jantar pronto e os meninos já tendo feito a lição de casa. Nada muda!
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Visagem
Duas luas!
Não se preocupou; devia estar sonhando.
Tornou a olhar, agora desconfiado. As danadas continuavam lá, reluzindo!
Esfregou os olhos, sacudiu a cabeça para ver se acordava, beliscou-se...
Nada! Havia mesmo duas luas no céu.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Tule preto
Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta.
Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs.
Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse.
Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros. Rosas de organza grená passaram a enfeitar o jarro. Cortinas marrons cobriram o que restava de luz nas janelas. Em cada nova peça dedicava-se por completo.
No início, o tempo bateu na porta trazendo os ventos de outono convidando-a a olhar para as belas folhas douradas sobre o chão. Nada! Voltou trazendo delicados raios de sol para aquecer os dias frios. Em vão! Paciente, trouxe-lhe flores, folhas, frutos, exuberância! Não adiantou. Em sua última tentativa, chegou com o calor dos afagos, com temporais de alegria, com trovões e raios anunciando festa. Então ela quis sair. Mas quando tirou dos olhos o tule preto, nada enxergou. Mesmo assim tentou. Seus pés, no entanto, não conheciam o caminho para a porta e esta, tanto tempo fechada, tinha virado parede...
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